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A TROIKA: A TROPA DE ABRIL /RÚSSIA/ MPLA.

Por estar enfeudado à Rússia, o MPLA partia com certas vantagens. Devido à sua política em relação à África, a Rússia não hesitaria em fornecer armamento, e, se necessário, instrutores e mercenários, para que o movimento de Neto pudesse rapidamente guindar-se a uma posição de supremacia sobre a FNLA e a UNITA. E foi o que realmente aconteceu.
Os primeiros aviões, vindos do Uganda, aterraram no Luso em Março de 1975, e desembarcaram armamento destinado ao MPLA, perante a passividade do exército português, a quem cabia, na altura, a responsabilidade da manutenção da ordem.
Toda a costa angolana, mas sobretudo a compreendida entre a Barra do Cuanza e o Dande, servia para o desembarque de material, isso com o conhecimento e até com a cooperação das forças militares de Abril portuguesas.
A UNITA sabia, à priori, que seria a vencedora de qualquer tipo de eleições. Apesar disso, também tentou rearmar-se, também procurou meios para reforçar o seu potencial militar. Mas, por nunca se ter enfeudado a qualquer potência, não encontrou aliados e teve dificuldades. Para contrabalançar a ajuda militar da Rússia ao MPLA, dirigiu-se sucessivamente aos americanos, franceses, ingleses, romenos, jugoslavos e a alguns países africanos. Porém, os seus apelos não tiveram eco.
É verdade que, em dado momento, alguns países africanos amigos se propuseram armar quinze mil homens da UNITA, para que esta, assim fortalecida, pudesse servir de equilíbrio entre rivalidades antigas e ameaçadoras do MPLA e da FNLA. Foi nessa altura, que o então major Melo Antunes, numa viagem feita a Dar-es-Salam e a Lusaka, surgiu a convencer a Tanzânia e a Zâmbia de que ele, Melo Antunes, iria proceder à entrega de quinze mil armas à UNITA. Aqueles países africanos concordaram com essa proposta maquiavélica, que no fundo, apenas visava atrasar o esforço da UNITA de armar melhor as suas forças.

Naturalmente que a UNITA nunca recebeu as quinze mil armas prometidas por Melo Antunes.
Recebeu, sim, umas pobres mil e quinhentas G3 no Huambo — entrega que suscitou imediatamente problemas com oficiais portugueses de Abril, que cumpriam em Angola instruções do Partido comunista de Álvaro Cunhal. Com o equipamento moderno de que MPLA se estava a dotar e com a chegada de instrutores e técnicos cubanos para as suas forças já em 1974, não era difícil profetizar que dias amargos e sangrentos aguardavam a independência de Angola!
Em Janeiro de 1975, quando da formação do Governo de Transição, já havia cubanos em Luanda. O seu número aumentou em Abril, por ocasião da minha visita àquela cidade. Nessa mesma altura, Massangano já era uma base de treino do MPLA, com instrutores cubanos.
Foi ainda nesse mês, também, que um avião português foi alvejado nos morros de Massangano, o que levou a Força Aérea Portuguesa a encarar a hipótese de uma acção punitiva contra aquela base.
Embora desconhecendo-se o seu número exacto, é indesmentível que os cubanos começaram a chegar a Angola em Novembro e Dezembro de 1974. Mesmo que em Massangano, em Luanda ou numa outra base, os seus efectivos não iam além de uma centena, é lógico que Cuba, cumprindo ordens da Rússia a partir de Janeiro de 1975 reforçou esses efectivos.
Qualquer argumento que tente justificar a presença de soldados cubanos em Angola como forma de contrapor à intervenção sul-africana, é, pois, redondamente falso, pois não resiste à análise dos acontecimentos.

Só o armamento maciço recebido da Rússia e o treino acelerado ministrado pelos cubanos às suas tropas permitiram ao MPLA recuperar o atraso de que sofria e combater com algum êxito a FNLA e a UNITA. Não seria certamente um MPLA profundamente dividido, com os seus elementos desgarrados, e sem aderentes que poderia de um dia para outro defrontar os outros dois movimentos e conseguir tomar Luanda.
Em confronto com o poderoso equipamento militar concedido pela Rússia ao MPLA, a UNITA apenas recebeu, dos vários países com quem contactou, quatrocentas armas. Por uma questão de rigor histórico, esclareço que esses países foram a Zâmbia, a Tanzânia, a Roménia e o Congo-Brazzaville. Cada um deles ofereceu-nos uma centena de armas. Mais nenhum outro país a UNITA tivesse disponível o armamento que possui hoje na guerra contra russos e cubanos, nunca por certo teria perdido as áreas que controlava. E talvez tivesse conseguido encontrar, na altura, uma solução política.